sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Olhos de gato II

Hoje Merluza veio com estilo.
Um pouco frio e ele vem com seu casaco de peles.
Dá uma olhada em volta e pensa: quem tem paciência de ouvir recordações de uma gato com nome de peixe. Na verdade, seu nome não era bem Merluza , era Mezuzah ( mas devido ser um nome de tema muito sério, resolveu abrandar e mudar para um nome comum: Merluza )
Merluza um gato que não come peixe. Alías , não come nenhum bichinho morto.
Então ratazanas, passarinhos e outros, podem ficar em paz, ele é vegetariano.
E por ser assim, foi motivo de muitas polêmicas. Tem que comer carne para ser um gato formoso ! Merluza nem sequer miava contrariar. Lambia os bifes, as carnes assadas , tortas de bacalhaus , almondegas ... Foi apelidado de Lambe, Lambe .
Sofria com isso. Um gato diferente. Só gostava de legumes e frutas. Então lambiscava beterrabas, cenouras, couve de bruxelas, couve flores, tudo o que tinha em cima e debaixo da terra. Não era compreendido. 
Nem precisava. Merluza só queria um cantinho pra dormir e bebericar seu leitinho. Ah, Merluza gostava de bolos e doces. Mas isso , era combatido.
Aumentava a cintura, diziam. Então Merluza foi crescendo e comendo escondido.
Como se não soubessem! Fingiam não ver. Então um gato balofo foi tomando forma. Mas um gato até elegante. Com seu casaco de peles ( sintética, é claro )
Com seu jeito de andar e de falar. 
Gato fala? Merluza tentava!

essa história continua ...




segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Olhos de gato - I

Aquele era um gato assustado
que miava, miava e não se ouvia o miado
Era um miado pra dentro, sufocado.
Comida, não lhe faltava.
Leite quente e pãozinho molhado .
Nenhum salmão, nem sardinha sequer. 
Mas ele miava sem parar.
Era novinho. Os bigodinhos bem aparados.
O pelo lustroso , bem oleoso. 
Na ponta da mesa, costumava ficar. Mirando
as fumacinhas dos pratos, o tilintar dos copos, 
o movimento da toalha e o vai vem dos olhares.
Ele sobrava. 
E não adiantava miar. 
A noite, uma caminha branquinha o esperava.
Carinhos e afagos na barriguinha.
Era hora de sonhar acordado até que o sono viesse.
E miar nem cogitava.
Ouvidos atentos para a música que vinha do rádio vizinho. 
Seus olhos giravam na penumbra da noite, criavam formas. As vezes animadoras, outras assustadoras.
Animadoras eram em dias de trovoada  com  relâmpagos e chuva. Assustadoras, eram pensar no banho. Na pelagem molhada, nos olhos ardidos de sabonete e nas longas horas de desembaraçar a pelagem. 
meruza  nem de longe , desconfiava suas origens.
Os olhos azuis denunciavam , mas ele sequer imaginava. 
Ficava a sismar por horas sentadinho. Nem piscava. 


domingo, 21 de agosto de 2016

Mainha


A mãe daquela menininha reparou numa coisa. A filha precisava socializar. 
Andava muito solitária, não sorria, não conversava, vivia no seu mundinho .

Sendo assim, preparou um pratinho com alguns docinhos e pediu para a filha entregar na vizinha.  - Mas mãe! - Vai lá, menina !

 - Mas como eu faço, mãe!
Primeiro você bate palmas. Espera no portão e diz: minha mãe pediu para entregar para a senhora. 
-E depois mãe! - Depois, você repara se ela pede para entrar. - Eu , entro?  
- Sim, entra com educação. Se ela pedir para sentar, você senta. Conversa um pouquinho.


 - Mas, mãe, falar sobre o quê. - Ah, menina, você inventa na hora. 
-E não vai demorar. Porque a gente tem que ser breve nas visitas, nada de amolação, muito bla bla bla. Entrega o pratinho, sorri , conversa um pouquinho  e volta.

Aquela mãe sabia que entre amigas vizinhas, a cordialidade é muito necessária.
Um intercambio saudável . O pratinho ia cheio, devia ser devolvido cheio.
Quando o pratinho não voltava, o que significava?

A menininha pensava: não gostaram do que foi oferecido? Ou não tinham para retribuir? Talvez. 
Precisava de compreensão.

 Nem todos tem o que oferecer. As vezes tem o prato vazio, as vezes são um prato vazio.
 Mas gentileza, poderia ter, pensava a menininha.
 Sim. Um pequeno agradecimento. Um sorriso. 


A mãe da menininha dizia que para uma amizade crescer era necessário de que 
houvesse retribuição. Tipo um jogo de ping pong ( tênis de mesa) 
Um joga a bola para o outro. Não deixa o outro no vácuo. O jogo precisa ser efetuado, senão perde a graça. 

No jogo das cordialidades não há vencedor ou perdedor. Quando há ruptura do intercâmbio ou o ego vizinho supera qualquer troca, fica uma tristeza. 
As amizades ficam frias ou distantes.

A menininha foi gostando daquele troca, troca. Gostava de ver as conversas das vizinhas da mãe entre as cercas dos quintais. Nem sempre os pratinhos circulavam. Mas as amizades cresciam. 

Houve a época do crochê, da troca de revistas, de uma olhar os filhos da outra para que pudessem ir ao médico ou algo assim.

A menininha foi socializando e observando. Não tinha coisa melhor que as correspondências . Podiam ser de olhares, de afeto, de cuidado .

 - E a mãe dizia: quando você crescer, cuide de suas amigas
Ofereça um chá da tarde.
Faça um ramalhete de flores e de como presente .
( ramalhete, ninguém mais usa essa palavra )

 - Mas mãe, e se elas não quiserem
se elas não estiverem nem aí pra mim

- Ahh, filha, você vai encontrar gente de todo o tipo
daquelas que  vão  te  deixar falando sózinha
que vão  morrer de inveja pelo que não tem e você tem
que são  casca grossa por natureza , 

 - Mas não se avexe
Cristo vai estar contigo
e essas minhas palavras

Não se deixe desanimar 
Não desista de você ! 

Eta mainha boa! 












sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Um manto

Hoje eu falaria por horas. Escreveria por horas. Assuntos diversos , do meu eu e  das minhas rotinas.
 Acordei pensando em escrever, mas as horas foram tomando outro rumo, e enveredei pelas fotos nas pastas do computador.

 
Tem dias que bate uma vontade de deletar tudo, começar de novo. Mas tem horas que impera o apego das fotos. Escolho aleatoriamente e vou organizando o pensamento. Depois fecho a gaveta mental e vou procurar outra coisa pra fazer.

 Serviços domésticos não faltam! Aí penso que gostaria de estar trabalhando fora. Num lugar muito agradável. Uma imensa mesa de vidro e um computador ( claro ) para me conectar.


 Toda semana eu me prometo um dia na praia ( poluída, pode ser ) Tenho a bolsa já preparada, protetor solar, canga, necessaire, carteira com dinheiro. Levo ou não levo a barraca, a cadeira? Tomo ônibus ou vou aqui perto? A cidade está lotada de turistas.


Ah os turistas ! Vão nos comprimindo, tomando os espaços sem muita educação
Vou deixando suas marcas, seja pelo metro, restaurantes ou espaços públicos. Como se fosse seu último dia na terra. Ávidos por viver e empurrando tudo e todos.


Não vou a praia. Gosto de praias desertas ( impossível) Está tudo lotado.
Mas a festa está terminado. Turistas vão embora, e os outros figurantes vão tomar o seu lugar. Uma população carente, jogada pelas ruas a espera da comiseração dos passantes. Esse nosso país é uma calamidade!


Então volto meu pensamento de que os seres humanos necessitam de acúmulos de coisas. Acúmulos de horas de passeios, de fotos , de selfie,
não se importando com o outro , vivendo um egocentrismo sem fim e numa competição consigo mesmo. Creio que numa luta contra a solidão. Vence quem se aparecer mais . Pensam que são Deus.


Imagem - Manto da apresentação
Bispo do Rosário
( não sei se é o manto original , mas essa exposição na Casa França Brasil
apresenta peças do Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea )



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Tão rápido ...

Uma foto roubada. Vou explicar: não pedi autorização. Tirei e pronto.
Foi tudo tão rápido, mas a roupinha era tão elegante que não resisti.
E esses cãezinhos, assustam os pássaros, os peixes.  E me assustam com seus doces latidos. 
Costumo ficar alí no laguinho tão abandonado! Refresco minha mente, atirando pãozinho para os peixes. Mas, delicadamente os bem te vis vem roubar. 
Antes que a foto dispare, o bem te vi já comeu o diminuto pãozinho.
Já me explicaram que pão não é um bom alimento , que estufa os peixinhos e a barriguinha dos pássaros. Comprei ração. Além de cara, não durou nada.
Então migalhas de pão já voltaram. Não é em excesso. Mal não fará.
E meus minutos de paz e de aconchego,  costumo colher.
Mas o cãozinho (a) roubou a cena. Roubou meu olhar. Até um cãozinho tem dono em sua melhor roupinha. Ganha afagos, beijinhos e uma coleira também.
Da coleira não gosto não. Deviam todos andar em liberdade.
Mas cada um carrega os seus problemas.
E lá foi o cãozinho (a) . Pela roupa parecia uma fêmea. Mas não perguntei. Passaram tão rápido que nem me atrevi a fazer perguntas. 
Fico no meu silêncio. O silêncio da observação. É bem melhor assim
Na solidão da horas. Eu fico vendo o mundo passar. E passa rapidinho.