quarta-feira, 29 de abril de 2015

A feijoada

O sábado estava friorento. Daquele frio que corta os lábios, que queima as beiradas das orelhas e enregela o corpo. Trabalhar aos sábados era um suplício para alguns, mas para ela era normal. Não reclamava de nada, tudo estava bom. Havia o cansaço das horas, mas para um corpo jovem tudo aliviava. Algumas horas de sono, ou um simples passeio e já estava pronta para mais um dia de trabalho. 

 Sábado era um dia de festa. Domingo era um dia morto. Dia onde nada acontecia. Então celebrar o sábado depois do serviço foi uma feliz oportunidade . Todos foram para o restaurante e pediram o prato do dia. Feijoada.  Nunca tinha comido uma feijoada . Era sua estréia de comer a tão sonhada  feijoada. Uma boa feijoada! Com variedades de carnes, paio, orelhinhas crocantes de porco,   couve picadinha, laranja descascadinha e caipirinha para cortar o frio. 

Seu rosto estava afogueado entre a gola rolê de lã verde . Parecia uma alface envolvendo um tomate. Como estava feliz! Não queria que aquele momento se quebrasse, que durasse o sábado inteiro. E degustou a feijoada com os colegas do serviço. O garçom ia servindo as bebidas, retirando pratos e admirando aquela garota glutona em frente ao prato. Parecia não gostar das carnes envoltas naquele creme do feijão preto, nem apreciar a farofa , mas a laranja e a caipirinha faziam uma dupla perfeita de sabores.

 Almoço concluído, foram embora. Ainda precisavam terminar algumas coisas no escritório. A garota também foi. Pegou a bolsa , bateu o cartão de ponto e quando saía encontrou um quase ex namorado. Que surpresa! Era um namoro complicado, entre idas e voltas, entre amores e rancores. Ela nem mais o considerava namorado. Mas ele estava ali na sua frente, com os olhos mais bonitos do planeta. Tipo um : volta pra mim! Nesse momento o coração amoleceu. Se desfez. As mágoas foram esquecidas, o tempo seria recuperado. Então mais uma comemoração. Quando, onde? O namorado decidiu. Vamos comemorar aqui perto, no restaurante onde todos costumam ir, assim você pode comer pela primeira vez a feijoada que você tanto sonhava! 

O coração bateu muito forte! A emoção foi demais! Com a bolsa a tiracolo ela disse sim. E foi secretamente  arrastando a barriga cheia de feijoada para mais uma feijoada. No restaurante, o mesmo garçom. De olhos arregalados, enquanto retirava os pratos e servia as bebidas  admirava aquela garota glutona em frente ao prato. De rosto vermelho parecendo um tomate ela bebericava lentamente a caipirinha. Decerto, o garçom  ficou preocupado, como ela também ficara. A barriga estufada, mas o coração feliz!

O namoro seguiu uns meses adiante. Romperam. O coração ficou só. Ela a glutona tornou-se vegetariana.  Perdeu o encanto pelo namorado e pela feijoada. 
Fonte da imagem da feijoada

5 comentários:

  1. Rsssssssssss...Só tu mesmo,Zizi! Adorei a criatividade! Fiquei com um certo receio de que para festejar reencontro, após a 2ª feijoada da noite, houvesse um convite pra encompridar o programa em um local mais íntimo. Aí ,ela poderia ter um troço,rs ... Ou então fazer vários tipos de fiascos,rs Imagino a cena daqui! ADOREI! Tu deves escrever mais e mais.,Adoro te ler! bj, chica

    ResponderExcluir
  2. Boa noite Zizi
    Este final foi incrível! Quando é que ia imaginar uma mudança tão radical? Você escreve com paixão e os seus contos são fantásticos minha querida
    Adorei ler
    Beijos

    ResponderExcluir
  3. Deixei-me envolver pela sua excelente narrativa com um final surpreendente , mas muito mais saudável :)

    um beijinho

    ResponderExcluir
  4. Não gosto de feijoada. Mas gosto e como sempre, feijão que não é o preto.

    ResponderExcluir
  5. Ah, que delicia são esta feijoadas de sábado com couve mineira.Mas duas vezes é coisa para matar o caboclo.
    Lindo seu conto com um fechamento magnifico.

    Parabéns Zizi.
    Abraços.

    ResponderExcluir

Feliz com sua presença!
Vou te aguardar com carinho!